O tipo de pisada e os tênis de corrida

Muitos pacientes entram no meu consultório querendo saber qual o seu tipo de pisada e com qual tênis devem correr. Muitos deles nem mesmo apresentam qualquer lesão, mas querem preveni-la, e acreditam que a escolha de um tênis adequado é de fundamental importância. Será?

Sobre o tipo de pisada…

Durante a marcha, o pé realiza um movimento de pronação (vira para “fora”) durante o apoio inicial e de supinação (vira para “dentro”) durante a fase de propulsão, e isso vale para todos que tenham suas articulações preservadas. É claro que a forma do pé difere entre os indivíduos, assim como alguns apresentam mais mobilidade e outros menos. A determinação do tipo de pisada é um tanto arbitrária, mas deve ser realizada com parâmetros objetivos, e não no “olhômetro”.  A maneira mais difundida de determinar o tipo de pé ou pisada é a impressão plantar, que mais modernamente pode ser verificada por meio de uma baropodometria. Acontece que a pisada não depende só do pé, mas de um conjunto de características anatômicas e biomecânicas, que vão desde o pé, passando pelo joelho, quadril, pelve, até a coluna vertebral. E ainda, a pisada do indivíduo parado e apoiado sobre os dois pés é uma coisa, caminhando é outra, e correndo é ainda mais diferente. Na verdade, quando corremos, estamos saltando de um pé para o outro e executando movimentos complexos e combinados que envolvem todo o corpo.

Concluindo, não se pode determinar o tipo de pisada de um indivíduo apenas observando-o enquanto está parado. É necessária uma ampla avaliação postural e biomecânica, estática e dinâmica, para se diagnosticar adequadamente as alterações e assimetrias que podem causar lesões durante a corrida.

Sobre os tênis…

A partir dos anos 70, a indústria calçadista passou a investir pesado em desenvolvimento de tecnologia para absorção de impacto, com promessas de diminuição na incidência de lesões relacionadas à corrida e de melhora na performance. Os modelos evoluíram muito, e cada uma das grandes marcas tratou de patentear sua própria tecnologia. O poder da propaganda convenceu facilmente o público leigo e até mesmo os profissionais da área da saúde e do treinamento esportivo de que determinados modelos eram superiores a outros e de que a absorção de impacto seria a característica mais importante na escolha do tênis para corrida. Nos últimos anos, entretanto, as coisas mudaram.

Na verdade, não existem evidências científicas de qualidade que comprovem a importância do tênis na prevenção de lesões relacionadas à corrida. O que existe são evidências de que o tênis é capaz de melhorar a absorção de impacto e de controlar a hiperpronação do retropé, mas em relação às lesões, nada.

Em um estudo de ótima qualidade publicado em 2010, os autores examinaram os recrutas do corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, determinando o tipo de pisada por avaliação clínica. Os indivíduos, de ambos os sexos, foram divididos em 2 grupos aleatoriamente. No primeiro grupo, 722 indivíduos receberam tênis de acordo com seu tipo de pé; no segundo grupo, 689 indivíduos receberam o mesmo tênis (neutro), independente do tipo de pé. Após 12 semanas de treinamento, a incidência de lesões não foi diferente entre os dois grupos.

Em outro estudo, os autores verificaram que indivíduos que usavam tênis mais baratos tinham menos lesões que aqueles que usavam tênis mais caros, sugerindo que a tecnologia não teria influência na ocorrência de lesões. Na verdade, a prevalência de lesões em corredores não mudou significativamente desde os anos 70, época em que a tecnologia de absorção de impacto começou a se desenvolver.

Motivado por estas evidências e por suas convicções evolucionistas, o Dr. Daniel Lieberman, professor da Universidade de Harvard, publicou em 2010 na renomada revista Nature, um artigo no qual conclui que corredores descalços apresentam diversas vantagens biomecânicas em relação aos que usam tênis, e sugere que correr descalço poderia diminuir o número de lesões inclusive em corredores acostumados a usar tênis. O impacto desta publicação foi enorme, tanto no meio científico quanto na indústria, que imediatamente voltou seu foco para os modelos chamados minimalistas, ou seja, com mínima ou nenhuma estrutura de absorção de impacto. Junto com esta “onda” dos minimalistas, muitas questões vêm à tona: Qual é a real importância da absorção de impacto nos tênis de corrida? Quando se deve trocar de tênis? É importante saber o tipo de pisada e por que? O tênis pode ser culpado pelas lesões? Deve-se mudar a maneira de correr?